Identidade
Valores.
Valores é o segundo subtema da jornada de Gestão de Si, na trilha de Identidade. Este artigo define o que são (e o que não são) valores, situa sua base conceitual na psicologia social e transcultural, diferencia valor declarado de valor vivido, apresenta as dificuldades mais comuns ao lidar com hierarquias e conflitos de prioridade, e propõe perguntas e atividades de diagnóstico para observar como os próprios valores se manifestam nas escolhas cotidianas, preparando a transição para a etapa seguinte da jornada, Crenças.
O que é?
Valores são princípios ou critérios relativamente duradouros que utilizamos para avaliar o que consideramos importante, desejável ou preferível.
Por que importa?
Valores funcionam como critérios para decisões.
Como aparece?
Considere uma pessoa que afirma:
Ideia central
Valores são critérios de importância que ajudam a pessoa a compreender o que tenta preservar, priorizar ou proteger quando escolhe.
Depois de começar a compreender quem sou, surge uma segunda questão:
O que é importante para mim?
Valores ocupam uma posição central na construção da identidade porque ajudam a explicar por que determinadas escolhas parecem naturais, enquanto outras provocam desconforto, conflito ou sensação de incoerência.
Duas pessoas podem enfrentar exatamente a mesma situação e tomar decisões diferentes sem que necessariamente uma delas esteja errada.
- Uma pode priorizar segurança. Outra, autonomia.
- Uma pode valorizar estabilidade. Outra, crescimento.
- Uma pode escolher reconhecimento. Outra, liberdade.
Conhecer os próprios valores não elimina escolhas difíceis. Mas permite compreender melhor o que estamos tentando preservar quando escolhemos.
Assim como ocorre com identidade, dificilmente alguém percebe inicialmente:
“Estou enfrentando um conflito de valores.”
A questão costuma aparecer de outras maneiras:
- “Tenho um bom emprego, mas não estou satisfeito.”
- “Quero mudar, mas tenho medo de perder o que construí.”
- “Não consigo aceitar a forma como algumas coisas são feitas aqui.”
- “Tenho dificuldade para decidir entre duas oportunidades.”
- “Estou ganhando mais, mas parece que minha qualidade de vida piorou.”
- “Minha família espera uma coisa de mim, mas eu quero outra.”
- “Não sei por que determinada situação me incomoda tanto.”
- “Conquistei o que queria, mas aquilo perdeu importância.”
Em muitos desses casos existe uma tensão entre aquilo que a pessoa está vivendo e aquilo que considera importante.
Em outros, existe algo ainda mais complexo: dois valores importantes estão competindo entre si.
- Carreira ou família.
- Segurança ou liberdade.
- Resultado ou qualidade de vida.
- Pertencimento ou autenticidade.
- Estabilidade ou crescimento.
Não significa que um valor seja correto e o outro errado.
Significa que escolher implica estabelecer prioridades.
Valores são princípios ou critérios relativamente duradouros que utilizamos para avaliar o que consideramos importante, desejável ou preferível.
Eles ajudam a responder perguntas como:
- O que importa para mim?
- O que considero certo ou errado?
- O que estou disposto a defender?
- O que não gostaria de perder?
- Que tipo de vida considero desejável?
Exemplos de valores podem incluir:
- autonomia
- segurança
- família
- liberdade
- realização
- justiça
- reconhecimento
- aprendizagem
- estabilidade
- contribuição
- honestidade
- pertencimento
- aventura
- responsabilidade
- prosperidade
Entretanto, simplesmente escolher palavras em uma lista não significa conhecer os próprios valores.
É relativamente fácil afirmar:
“Família é importante para mim.”
A pergunta mais difícil é:
Como isso aparece nas minhas escolhas?
Valores tornam-se particularmente relevantes quando precisam disputar recursos escassos: tempo, dinheiro, atenção, energia e oportunidade.
É nesse momento que começamos a perceber sua verdadeira hierarquia.
Valores não são objetivos
Um objetivo pode ser: “Quero ser promovido nos próximos dois anos.”
Realização, crescimento, reconhecimento ou segurança podem estar entre os valores relacionados a esse objetivo.
O objetivo pode ser alcançado. O valor continua existindo.
Valores não são regras universais
Algo importante para você não precisa possuir a mesma importância para outra pessoa.
Uma pessoa pode valorizar profundamente previsibilidade. Outra pode sentir-se estimulada por novidade.
Nenhuma dessas preferências é, por si só, superior.
O problema aparece quando tratamos nossos próprios valores como se fossem critérios universais:
“Se ele fosse responsável, faria como eu.”
Talvez não. Ele pode estar utilizando outro critério de prioridade.
Valores não são palavras bonitas
Quando perguntadas sobre seus valores, muitas pessoas escolhem palavras socialmente desejáveis:
- “família.”
- “honestidade.”
- “respeito.”
- “ética.”
Todas podem representar valores legítimos.
Mas o teste mais importante não está na palavra. Está no comportamento.
Aquilo que dizemos valorizar encontra espaço real na maneira como utilizamos nosso tempo, dinheiro, energia e atenção?
Valores não são necessariamente conscientes
Nem sempre sabemos explicar claramente aquilo que orienta nossas decisões.
Podemos descobrir nossos valores observando padrões de escolha.
Às vezes aquilo que fazemos revela prioridades diferentes daquelas que declaramos. Essa diferença merece investigação, não julgamento.
Valores funcionam como critérios para decisões.
Imagine duas oportunidades profissionais.
Oportunidade A
- remuneração maior
- posição mais elevada
- viagens frequentes
- menor previsibilidade
- pouco tempo disponível
Oportunidade B
- remuneração menor
- maior autonomia
- rotina previsível
- proximidade da família
- menor status profissional
Não existe informação suficiente para determinar qual oportunidade é melhor.
A resposta depende, entre outros fatores, dos critérios utilizados pela pessoa.
Se naquele momento crescimento e reconhecimento forem prioritários, a primeira alternativa pode parecer mais atraente.
Se autonomia e presença familiar forem prioritárias, a segunda pode fazer mais sentido.
A dificuldade aparece quando queremos simultaneamente: o crescimento da primeira e a liberdade da segunda.
Nesse momento, valores deixam de ser palavras abstratas.
Transformam-se em trade-offs¹.
Escolher significa aceitar que algumas alternativas serão priorizadas em relação a outras.
Valores como critérios de escolha
Valores funcionam como referências utilizadas para avaliar alternativas, pessoas, situações e comportamentos.
Eles não determinam mecanicamente nossas ações.
Uma pessoa pode valorizar saúde e ainda assim manter hábitos pouco saudáveis. Pode valorizar família e dedicar quase todo o tempo ao trabalho. Pode valorizar aprendizagem e passar anos sem estudar algo novo.
Existe, portanto, uma diferença importante entre:
valor declarado
e
valor praticado.
Essa diferença é uma das fontes mais importantes de informação para o desenvolvimento pessoal.
Hierarquia de valores
Nem todos os valores possuem a mesma importância em todas as situações.
Quando dois valores entram em conflito, alguma forma de priorização ocorre.
- segurança × oportunidade
- família × carreira
- harmonia × sinceridade
- autonomia × pertencimento
- qualidade × velocidade
Podemos considerar ambos importantes.
Mas determinadas situações exigem escolher qual deles terá maior peso naquele momento.
Por isso, conhecer uma lista de valores é menos útil do que compreender sua hierarquia relativa.
Valores e contexto
Prioridades também podem mudar ao longo da vida.
Aos vinte anos, aventura e crescimento podem ocupar posições muito altas. Em outro momento, estabilidade ou família podem ganhar importância. Posteriormente, contribuição ou legado podem tornar-se mais relevantes.
Isso não significa necessariamente que os valores anteriores desapareceram. Pode significar que a prioridade relativa entre eles mudou.
Revisar valores periodicamente é, portanto, uma forma de verificar se nossas decisões atuais continuam alinhadas com a pessoa que estamos nos tornando.
Valores declarados e valores vividos
Existe uma pergunta particularmente útil:
Se alguém observasse apenas minha agenda e meus gastos durante os últimos seis meses, quais valores concluiria que são importantes para mim?
A resposta pode ser desconfortável. Mas produz informação.
Talvez alguém diga valorizar saúde, enquanto quase nenhum tempo é dedicado a ela. Talvez diga valorizar família, enquanto sua agenda revela disponibilidade permanente para o trabalho. Talvez diga valorizar aprendizagem, mas não tenha dedicado tempo significativo a estudar algo novo.
A questão não é produzir culpa. É comparar:
- o que digo que importa
- com aquilo para o qual efetivamente direciono recursos.
O estudo de valores possui tradição consolidada na psicologia social e transcultural.
Uma tradição importante da psicologia social diferenciou valores de outras construções psicológicas e propôs compreender sistemas de valores como conjuntos organizados de crenças sobre estados ou formas de comportamento desejáveis.
Outra contribuição amplamente pesquisada sobre valores humanos básicos mostra que diferentes valores expressam motivações distintas e podem estabelecer relações de compatibilidade ou conflito.
Essa perspectiva é particularmente útil para Gestão de Si.
Ela ajuda a compreender por que uma pessoa pode valorizar simultaneamente objetivos que produzem tensões.
Autonomia e segurança podem ser importantes. Realização e qualidade de vida também.
O problema não está necessariamente na existência de valores diferentes. A questão está em como a pessoa administra prioridades quando esses valores apontam para direções distintas.
A literatura também mostra que valores possuem relativa estabilidade, mas não devem ser tratados como características completamente imutáveis.
Experiências, mudanças de contexto, idade, relações e acontecimentos importantes podem modificar prioridades ao longo do tempo.
Considere uma pessoa que afirma:
“Liberdade é um dos meus principais valores.”
Mas ela:
- aceita compromissos que não deseja;
- evita dizer não;
- mantém uma rotina sobrecarregada;
- permite disponibilidade permanente;
- raramente protege seu próprio tempo.
Existe uma inconsistência entre valor declarado e comportamento observado.
Agora imagine alguém que valoriza segurança. Essa pessoa pode:
- preferir reservas financeiras;
- evitar decisões de alto risco;
- permanecer mais tempo em determinadas organizações;
- buscar previsibilidade;
- planejar antes de agir.
O mesmo comportamento pode parecer excessivamente conservador para alguém que valoriza aventura.
Por isso, compreender valores também ajuda a compreender diferenças entre pessoas.
Nem toda divergência é falta de competência, inteligência ou caráter. Às vezes estamos simplesmente priorizando coisas diferentes.
Confundir valores pessoais com valores socialmente desejáveis
É fácil selecionar palavras que parecem corretas.
Mais difícil é descobrir quais realmente orientam nossas decisões.
Querer priorizar tudo
Se tudo é prioridade, nada é prioridade.
Dizer que dez ou quinze valores possuem exatamente a mesma importância reduz sua utilidade como critério decisório.
O desenvolvimento exige algum nível de hierarquização.
Não reconhecer conflitos
Às vezes tentamos encontrar uma solução perfeita porque não queremos aceitar o custo da escolha.
Queremos:
- mais responsabilidade e menos pressão;
- mais remuneração e mais tempo;
- mais autonomia e mais segurança;
- mais crescimento e nenhuma mudança.
Nem sempre isso será possível.
Reconhecer um conflito de valores permite discutir o verdadeiro problema.
Utilizar valores para julgar os outros
- “Ele só pensa em dinheiro.”
- “Ela não tem ambição.”
- “Ele não valoriza a família.”
Essas afirmações podem transformar diferenças de prioridade em julgamento moral.
Compreender valores não significa concordar com todas as escolhas.
Significa reconhecer que pessoas diferentes podem organizar suas prioridades de maneiras diferentes.
Confundir valor com comportamento perfeito
Valorizar algo não significa agir perfeitamente de acordo com aquilo o tempo todo.
Existe diferença entre incoerência ocasional e um padrão persistente de desalinhamento.
É o padrão que merece maior atenção.
Este subtema deve ser trabalhado por meio de atividades separadas. Cada atividade terá seu próprio documento para download.
Durante uma semana, escolha uma decisão cotidiana por dia.
Não precisa ser uma grande decisão. Pode ser:
- aceitar ou recusar um compromisso;
- comprar alguma coisa;
- utilizar determinada parte do seu tempo;
- aceitar uma tarefa;
- adiar algo;
- encontrar alguém;
- trabalhar além do horário;
- dedicar tempo a determinada atividade.
Depois da decisão, pergunte:
O que eu estava tentando preservar ou obter quando escolhi isso?
Não procure imediatamente uma palavra de uma lista de valores.
Descreva primeiro o motivo. Depois tente identificar o princípio existente por trás da decisão.
Ao final da semana, compare as sete respostas. Procure repetições.
Valores tornam-se mais claros quando observamos padrões de escolha, e não apenas quando selecionamos palavras que parecem representar quem somos.
Importância
Perguntas de reflexão
- O que considero realmente importante na minha vida hoje?
- O que eu não gostaria de perder?
- O que estou disposto a defender mesmo quando existe um custo?
- O que me produz maior sensação de realização?
Comportamento
Perguntas de reflexão
- Onde utilizo a maior parte do meu tempo?
- Onde utilizo a maior parte da minha energia?
- Onde direciono meus recursos financeiros disponíveis?
- Essas escolhas são coerentes com aquilo que afirmo valorizar?
Conflito
Perguntas de reflexão
- Quais duas prioridades frequentemente competem entre si?
- Que decisão venho adiando porque gostaria de preservar duas coisas incompatíveis?
- Que custo não estou disposto a aceitar?
- O que precisaria perder para conseguir aquilo que desejo?
Origem
Perguntas de reflexão
- Quais valores aprendi com minha família?
- Quais vieram do ambiente profissional?
- Quais eu realmente reconheço como meus?
- Que valor já foi muito importante, mas hoje perdeu prioridade?
Desenvolvimento
Perguntas de reflexão
- Qual valor está recebendo menos espaço do que deveria?
- Qual está ocupando espaço excessivo?
- Que mudança concreta tornaria minha rotina mais coerente com minhas prioridades?
- Se eu pudesse proteger apenas cinco valores nos próximos anos, quais seriam?
Essas perguntas não têm como objetivo produzir uma classificação definitiva. Elas ajudam a tornar explícitos critérios que muitas vezes influenciam decisões sem serem percebidos.
“Existe uma lista correta de valores”
Não. Listas podem ajudar a encontrar palavras, mas não determinam quais valores uma pessoa deveria possuir.
“Meus valores nunca mudam”
Valores podem apresentar estabilidade, mas prioridades relativas podem mudar.
A vida muda. Responsabilidades mudam. Experiências mudam. A própria pessoa muda.
“Se valorizo algo, preciso colocá-lo sempre em primeiro lugar”
Não.
Valorizar família não significa abandonar carreira. Valorizar trabalho não significa negligenciar saúde.
O problema real costuma ser administrar prioridades dentro de contextos específicos.
“Se estou desalinhado com meus valores, preciso mudar tudo”
Também não. Antes de realizar mudanças importantes, é necessário compreender:
- qual valor está sendo afetado,
- qual é o conflito,
- qual é o custo,
- quais alternativas existem.
Perceber desalinhamento é o início da análise, não necessariamente uma ordem para agir imediatamente.
“Valores eliminam dúvidas”
Valores não eliminam complexidade. Eles ajudam a organizar critérios.
Uma decisão pode continuar difícil mesmo quando sabemos claramente o que importa. Em alguns casos, ela se torna difícil justamente porque duas coisas muito importantes estão em conflito.
Identificar valores produz uma pergunta inevitável.
Se isso é importante para mim: o que acredito sobre mim, sobre os outros e sobre o mundo que facilita ou dificulta viver dessa maneira?
Uma pessoa pode valorizar autonomia e acreditar:
“Preciso da aprovação das pessoas antes de decidir.”
Pode valorizar crescimento e acreditar:
“Errar significa demonstrar incompetência.”
Pode valorizar família e acreditar:
“Um bom profissional precisa estar disponível o tempo inteiro.”
Valores indicam aquilo que queremos preservar. As crenças começam a revelar as regras que utilizamos para interpretar como isso deve acontecer.
A jornada avança, portanto, de:
O que é importante para mim?
para:
O que acredito ser verdadeiro?
Próxima etapa, Crenças: as interpretações que transformamos em regras para compreender a nós mesmos e o mundo.
- Trade-off: situação em que aumentar, preservar ou escolher determinada alternativa implica abrir mão, reduzir ou assumir algum custo em relação a outra alternativa.
- Hierarquia de valores: organização relativa da importância atribuída a diferentes valores. Não significa necessariamente uma classificação permanente; prioridades podem variar conforme contexto e momento de vida.
- Valor declarado: aquilo que uma pessoa afirma considerar importante.
- Valor vivido: valor que pode ser inferido, com cautela, a partir de padrões recorrentes de comportamento, escolhas e distribuição de recursos.
- Valor instrumental: modo de comportamento considerado desejável.
- Valor terminal: estado final de existência considerado desejável.
Trade-off
situação em que aumentar, preservar ou escolher determinada alternativa implica abrir mão, reduzir ou assumir algum custo em relação a outra alternativa.
Hierarquia de valores
organização relativa da importância atribuída a diferentes valores. Não significa necessariamente uma classificação permanente; prioridades podem variar conforme contexto e momento de vida.
Valor declarado
aquilo que uma pessoa afirma considerar importante.
Valor vivido
valor que pode ser inferido, com cautela, a partir de padrões recorrentes de comportamento, escolhas e distribuição de recursos.
Valor instrumental
modo de comportamento considerado desejável.
Valor terminal
estado final de existência considerado desejável.
- ROKEACH, Milton. The nature of human values. New York: Free Press, 1973.
- SCHWARTZ, Shalom H. Universals in the content and structure of values: theoretical advances and empirical tests in 20 countries. Advances in Experimental Social Psychology, v. 25, p. 1-65, 1992.
- SCHWARTZ, Shalom H. An overview of the Schwartz theory of basic values. Online Readings in Psychology and Culture, v. 2, n. 1, 2012.
- SCHWARTZ, Shalom H. et al. Refining the theory of basic individual values. Journal of Personality and Social Psychology, v. 103, n. 4, p. 663-688, 2012.
- ROCCAS, Sonia; SAGIV, Lilach (ed.). Values and behavior: taking a cross-cultural perspective. Cham: Springer, 2017.
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